A Virgindade de Maria
A Virgindade de Santa Maria pode ser entendida em um triplo sentido:
Virgindade de mente é dizer um constante propósito de
virgindade, evitando todo aquilo que repugna a perfeita castidade.
Este é o chamado aspecto espiritual ou de entrega total a Deus.
Virgindade dos sentidos, ou seja, a imunidade dos impulsos desordenados
da concupiscência. Este é o chamado aspecto moral. Virgindade
do corpo, isto é, a integridade física jamais violada
por nenhum contato de homem algum. O Dogma Mariano do qual agora tratamos
detém-se a considerar, principalmente, a integridade corporal
de Santa Maria, e assim a Igreja nos ensina que Maria Santíssima:
- era virgem ao conceber a Nosso Senhor (antes do parto);
- foi virgem ao dar a luz ao Senhor (no parto);
- permaneceu virgem depois do nascimento de Cristo (depois do parto).
O Magistério da Igreja
a) Em todos os Símbolos Apostólicos se declara a Fé quando
se diz: "Creio em Jesus Cristo... que nasceu da Virgem Maria,
por obra do Espírito Santo" (cf. DZ. 4,5,6,7,19,282).
b) Os Concílios e declarações pontifícias
expressam com unanimidade esta verdade.
A Sagrada Tradição
Santo Irineu: "Era necessário que na restauração
de Adão por Cristo... a desobediência virginal de Eva
fosse desvirtuada e suprimida pela obediência virginal
de Maria".
São Jerônimo: "Cristo virgem e Maria virgem consagraram
os princípios da virgindade em ambos os sexos".
Santo Agostinho: "Se com o nascimento de Jesus se houvesse corrompido
a integridade da mãe, não haveria nascido de uma virgem,
e portanto, toda a Igreja
professaria falsamente que havia nascido de uma virgem".
Santo Efraim: "Entrou e habitou secretamente no seio; saindo
depois do seio, não rompe o selo virginal".
"Enquanto o hedonismo, a sensualidade e a exaltação
imoderadada do sexo vêm inundar e asfixiar a humanidade, o Senhor
nos revela sua estima e seu apreço divino da pureza, unindo
milagrosamente em sua Mãe o gozo da maternidade e o honra da
virgindade." (Pio XII)
Conteúdo do Dogma
A virgindade perpétua de Maria é um milagre operado
por Deus e um privilégio concedido e intimamente ligado ao
da maternidade divina. Este dogma mariano se explicita em três
grandes momentos: antes, no, e depois do parto:
A Virgindade antes do parto:
Isto significa que Maria, antes de conceber a Jesus não teve
nenhum contato carnal humano e, ainda, que concebeu ao Senhor milagrosamente,
isto é, sem a o contato com um homem. A ação
do germen viril foi suprida milagrosamente por Deus, "por obra
do Espírito Santo".
Segundo a Sagrada Escritura:
"A virgem conceberá e dará a luz a um filho." (Is
7, 14)
"o Anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma virgem, o nome da
virgem era Maria". (Lc 1, 26)
" 'Como será isso, pois não conheço homem
algum?'. 'O Espírito Santo virá sobre ti e a virtude
do Altíssimo te cobrirá com sua sombra'." (Lc 1,
34-36)
"José... não temas receber Maria, porque o concebido
nela é obra do Espírito Santo". (Mt 1, 20)
Em Mt 1, 16 e 18-25: "... Jacó gerou a José";
ao citar a seqüência das genealogias, o lógico seria
continuar essa seqüência dizendo: José gerou a Jesus,
mas se disse: "... Maria da qual nasceu Jesus".
Por isso disse depois: "... filho, segundo a geração
de José" (Lc 3, 23).
Segundo razões de conveniênica:
São Tomás disse:
1. Convém-se que o Filho natural de Deus não tenha
pai na terra, que tenha um único pai no céu para que
a dignidade de Deus não se comunique a outro.
2. O Verbo, que foi concebido eternamente na mais alta pureza espiritual,
foi também concebido virginalmente quando se fez carne.
3. Para que a natureza humana do Salvador estivesse extinta do pecado
original, converia que não fosse concebido por via seminal,
mas por concepção virginal. Do contrário seria
um absurdo, isto é, que Cristo tivesse necessidade de ser redimido.
Se fez igual em tudo a nós, menos no pecado (cf. Hb 4,15).
4. Ao nascer segundo a carne de uma virgem, Cristo nos indicava que
os membros de seu Corpo Místico deveriam nascer, segundo o
espírito, da Igreja Virginal (cf. Jn 1,13; S. Th. I II, q.28,
a. 1).
A Virgindade No Parto:
Isto significa que Maria deu a luz a seu Filho primogênito
sem perder sua integridade corporal e ainda, que seu parto foi sem
dor alguma. A Ela não se alcançou castigo que Eva recebeu: "gerarás
teus filhos com dor" (Gn 3,16). O parto, em conseqüência,
foi
milagroso e de caráter extraordinário.
Segundo a Sagrada Escritura:
"E deu a luz a seu Filho primogênito e o envolveu em panos,
e o reclinou em uma manjedoura, porque na cidade não havia
lugar para eles". (Lc 2,7)
Essa passagem explica, São Pio X, em seu Catecismo, desta
maneira: o nascimento do Senhor foi semelhante a "como um raio
de sol que atravessa o cristal sem rompê-lo ou manchá-lo".
Segundo as razões de conveniêcia, São Tomás
de Aquino expressa deste modo:
1. O Verbo, que foi certamente concebido e que procede do Pai sem
nenhuma corrupção, devia, ao fazer-se carne de uma Mãe
virgem, conservando sua
virgindade.
2. O que veio para evitar toda corrupção, ao nascer,
não deveria destruir a virgindade daquela que lhe deu a vida.
3. O que nos ordena a honrar pai e mãe obrigava-se a si mesmo
não diminuir, ao nascer, a honra de sua Santa Mãe. (cf.
S. Th. III, q. 28, a. 2)
A Virgindade Depois do Parto:
Significa que Maria, depois de dar a luz a seu Filho primogênito,
virginalmente, permaneceu sempre virgem, até o final de seus
dias na terra, sem ter contato com homem algum, e em conseqüência,
sem gerar outros filhos.
Segundo a Sagrada Escritura:
"Pois não conheço homem algum" (Lc 1,34).
Essas palavras indicam a resolução de Maria, opinião
comum, fazendo o voto perpétuo de virgindade, o qual significa
que aceita a concepção virginal de Cristo - por obra
do Espírito Santo - e reafirma seu desejo de permanecer sempre
virgem.
"E não a conheceu até que deu a luz um Filho,
ao qual pôs o nome de Jesus" (Mt 1,25). As palavras desse
versículo: "E não a conheceu até que deu
a luz..." tem
induzido alguns a interpretá-la no sentido que, depois do nascimento
de Jesus, entre a Virgem Maria e São José, houveram
relações matrimoniais. Deve levar-se em
conta o sentido bíblico que diz "até que",
pretende ressaltar o que já tem ocorrido até esse momento:
a concepção virginal de Jesus. A partícula não
leva em conta a situação posterior.
A Igreja tem ensinado sempre a perpétua virgindade de Maria.
Conforme as declarações do Magistério neste capítulo
e os comentário sobre a passagem da Anunciação
no capítulo 3 e, em particular, o dizem no v. 34 da mesma passagem.
"
Mulher, eis aí teu Filho" (Jo 19,26). Isso não
haveria ocorrido, não seria lógico, se Maria tivesse
outros filho que pudessem cuidar dela.
Segundo São Tomás:
1. O que desde toda eternidade é Filho único do Pai,
convém que seja no tempo o filho único de Maria.
2. Seria uma ofensa ao Espírito Santo, o qual santificou para
sempre o seio virginal de Maria.
3. Se a dignidade de ser Mãe de Deus supôs a virgindade
antes e no parto, essa mesma dignidade segue existindo depois do parto
(cf. S. Th. III, q. 28, a.3)
Maria Santíssima é a pureza personificada, o ideal
vivente da virgindade. Por ela, escreve São Cura D'Ars: "Devemos
professar uma fervente devoção à Santíssima
Virgem, se quisermos conservar essa virtude; da qual não nos
deve caber dúvida alguma, se considerarmos que Ela é a
Rainha, o modelo de Patrona das Virgens..." (Sermão sobre
a pureza)
Questões Complementares
O Matrimônio de José e de Maria:
Em razão da perpétua virgindade de Maria, isto é,
por seu desejo de evitar todo contato com um homem, cabe perguntar
se pode existir um verdadeiro matrimônio com José. São
Tomás de Aquino responde dizendo que efetivamente houve verdadeiro
matrimônio, distinguindo a forma e o fim do mesmo:
1. A forma do matrimônio consiste em guardar indivisivelmente
a fidelidade um ao outro;
2. O fim do matrimônio é a geração da
espécie, que se obtém pela relação e a
educação que se obtém pelas obras dos esposos.
No caso de Maria e José, quanto à forma, foi verdadeiro
matrimônio, porque guardou-se a fidelidade. Quanto ao fim, refere-se À relação,
então hão consumada, mas en quanto tiver um filho: Jesus,
de que se ocuparam também de sua educação. (cf.
S. Th. III, q. 29. a.2)
Em outras palavras, a essência do matrimônio consiste
no direito sobre os corpos com o objetivo da procriação
- ius incorpore - mas, outra coisa é o uso desse direito, que
pode usar-se ou não em razão das causas legítimas.
Disso onderesulta que pode existir verdadeiro matrimônio, ainda
quando este seja virginal.
Disse São Tomás: "Não pode negar que Maria
e José contrairam o verdadeiro matrimônio, porquanto
que Maria concebeu e deu a luz a Cristo virginalmente e no
dia da união com José. Com isso, pode se dizer aos fiéis
casados que, ainda guardado de comum consentimento a continência,
permanece o vínculo conjugal sem a união dos corpos".
(S. Th. Q.29, a.2)
Autor: Bruno Valadão
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