desse menino. Todos os que os ouviam admiravam-se das
coisas que lhes contavam os pastores. Maria conservava todas
essas palavras no seu coração. Voltaram os pastores,
glorificando e louvando a Deus por tudo o que tinham ouvido e visto,
e que estava de acordo com que
lhes fora dito. Completados que foram os oito dias para ser
circuncidado o menino, foi-lhe posto o nome de Jesus, como lhe tinha
chamado o
anjo, antes de ser concebido no seio materno."
O ano civil se inicia com uma importantíssima solenidade na
Igreja do Ocidente. A Santíssima Virgem Maria é honrada,
neste dia, pela sua divina maternidade. Nossa Senhora é, verdadeiramente,
a Mãe de Deus.
Antes da reforma litúrgica conduzida por Paulo VI nos anos
1969-70, e pedida pelo Concílio Ecumênico Vaticano II,
o Calendário Romana dava à festa em questão,
na Oitava do Natal, o título de Circuncisão do Senhor.
Dia de preceito, como o é ainda hoje, a base da lição
evangélica continua a mesma desde o antigo Missal de 62, dito "de
São Pio V" – ou "Missal Tridentino", porque
associado à sua codificação, querida pelo Concílio
Ecumênico de Trento –, ou seja, a passagem que descreve
como, ao Menino Deus, foi dado o nome de Jesus, no oitavo da de nascido,
data em que, pelos ditames da lei judaica, deveria ser circuncidado.
Apesar da troca do nome, o sentido da comemoração mantém-se,
basicamente, o mesmo. A circuncisão de Nosso Senhor Jesus Cristo
atesta, contra a heresia docetista, que Ele não é homem
apenas na aparência. Jesus Cristo, o Filho do Deus Altíssimo,
segunda Pessoa da Santíssima Trindade, também é homem.
Por outro lado, Maria, genitora de Cristo segundo a carne, é apresentada
nesta mesma festa, outrora "da Circuncisão", como
Mãe de Deus, provando que seu Filho é divino e que Sua
humanidade não se separa de Sua divindade, ainda que não
se confunda com esta.
A essas duas realidades fundamentais da fé católica,
tributa louvor a solenidade do primeiro dia do ano. Para que o ano
se inicie a partir dos fundamentos dogmáticos de nossa sagrada
religião, não poderia a Providência escolher melhor
título do que "Solenidade de Santa Maria, Mãe de
Deus". Nestes tempos em que a divindade de Cristo é tão
atacada, quando reduzem-nO a mero pregador de mensagens amorosas,
principiar dessa forma o ano civil é símbolo de triunfo
para os crentes e de confusão para os que se perdem.
A negação de Sua natureza divina não é novidade.
Se, no dizer de Chesterton, "a heresia é uma verdade que
enlouqueceu", também é de fácil constatação
que o diabo não é tão criativo quando quer sua
soberba. As mesmas heresias, "verdades endoidecidas", reaparecem,
após aparentemente extintas. Muda a roupagem, trocam-se, talvez
certos termos, mas o fundo é idêntico. Não causa
espanto, pois, que hoje, no auge do modernismo – síntese
e súmula de todas as heresias –, reapareça tão
antigo erro, qual seja o de desacreditar que Cristo é Deus.
O grande Papa do início do século passado, São
Pio X, em sua encíclica contra os modernistas já advertia: "A
missão, que nos foi divinamente confiada, de apascentar o rebanho
do Senhor, entre os principais deveres impostos por Cristo, conta
o de guardar com todo o desvelo o depósito da fé transmitida
aos Santos, repudiando as profanas novidades de palavras e as oposições
de uma ciência enganadora. E, na verdade, esta providência
do Supremo Pastor foi em todo o tempo necessária à Igreja
Católica; porquanto, devido ao inimigo do gênero humano
nunca faltaram homens de perverso dizer (At 20,30), vaníloquos
e sedutores (Tit 1,10), que caídos eles em erro arrastam os
mais ao erro (2 Tim 3,13). Contudo, há mister confessar que
nestes últimos tempos cresceu sobremaneira o número
dos inimigos da Cruz de Cristo, os quais, com artifícios de
todo ardilosos, se esforçam por baldar a virtude vivificante
da Igreja e solapar pelos alicerces, se dado lhes fosse, o mesmo reino
de Jesus Cristo. Por isto já não Nos é lícito
calar para não parecer faltarmos ao Nosso santíssimo
dever, e para que se Nos não acuse de descuido de nossa obrigação,
a benignidade de que, na esperança de melhores disposições,
até agora usamos.
E o que exige que sem demora falemos, é antes de tudo que
os fautores do erro já não devem ser procurados entre
inimigos declarados; mas, o que é muito para sentir e recear,
se ocultam no próprio seio da Igreja, tornando-se destarte
tanto mais nocivos quanto menos percebidos.
Aludimos, Veneráveis Irmãos, a muitos membros do laicato
católico e também, coisa ainda mais para lastimar, a
não poucos do clero que, fingindo amor à Igreja e sem
nenhum sólido conhecimento de filosofia e teologia, mas, embebidos
antes das teorias envenenadas dos inimigos da Igreja, blasonam, postergando
todo o comedimento, de reformadores da mesma Igreja; e cerrando ousadamente
fileiras se atiram sobre tudo o que há de mais santo na obra
de Cristo, sem pouparem sequer a mesma pessoa do divino Redentor que,
com audácia sacrílega, rebaixam à craveira de
um puro e simples homem." (Sua Santidade, o Papa São Pio
X; Carta Encíclica "Pascendi Dominici Gregis" Sobre
as Doutrinas dos Modernistas; Roma, 8 de Setembro de 1907)
Essa destruição dos pilares da fé católica – que,
entretanto, não logrará vencedora frente as promessas
do Salvador (cf. Mt 16,18) –, tentativa desesperada de Satanás
de perder os homens, é reedição de uma das primeiras
heresias enfrentadas pela Santa Igreja: o arianismo.
Deriva tal monstruosidade do diabólico engenho de Ario, teólogo
líbio e sacerdote incardinado na Sé de Alexandria, no
Egito. Cria Ario – e assim o ensinava – que o Filho de
Deus, o Verbo, o Logos, era mera criatura do Pai, e não co-eterno
com Ele e de Sua mesma substância. Embebida em um neoplatonismo,
sua doutrina sustentava que só o Pai é eterno, imutável,
incriado, divino. Para ele, o Filho é a primeira das criaturas,
a mais excelente delas, e de uma substância diversa da do Pai.
Não há Trindade, no pensamento ariano. O Filho é uma
criatura excelsa apenas – semelhante ao que crêem os "testemunhas
de Jeová" e, em certa medida, os espíritas dos
mais variados matizes e seitas – um instrumento de Deus para
que as outras fossem criadas, e que, pelo pecado, encarnou-se em Cristo,
tomando o lugar da alma. A Encarnação, então,
na visão ariana, não é um assumir por Deus da
natureza humana, senão apenas da matéria, da carne humana,
deixando de lado a alma – que é, para eles, mera animação
do corpo de Jesus, função esta do Filho, do Verbo. Aliás,
nem é Deus quem assume a tal carne humana, uma vez que o Filho
não é Deus para Ario e seus asseclas.
Tanto sucesso teve a errônea teoria do referido padre, que
São Jerônimo, o gênio responsável pela tradução
da Bíblia para o latim – a Vulgata –, e um dos
gigantes da fé católica, chega a dizer, utilizando-se
de um exagero retórico, que o mundo todo passou a ser ariano.
Deus, todavia, levantou não poucos campeões para defender
a ortodoxia. Dentre todos, destaca-se, sem sombra de dúvidas,
o grande Santo Atanásio, também de Alexandria, por sinal,
depois de sua luta inicial, elevado à condição
de patriarca dessa importante sé do trono de São Marcos,
o evangelista.
Na época em que iniciou seu apostolado em prol da fé na
divindade do Filho, Santo Atanásio de Alexandria era diácono,
secretário do Patriarca Alexandre. Por seu trabalho, teológica
e filosoficamente coerente, um ponto importantíssimo de doutrina
foi solenemente definido, em 325, no Concílio Ecumênico
de Nicéia I, como pertencente ao depósito da fé católica
ortodoxa, tal como nos foi passado por Cristo através dos apóstolos.
O Filho e o Pai, diz o dogma, são consubstanciais, i.e., têm
a mesma substância, são ambos divinos. Jesus Cristo,
pois, não é um simples homem animado por um outro ser
espiritual. Ele é o mesmo que esse. Mais do que isso, não
apenas é uno com ele, como é uno com Deus. É o
próprio Deus. Jesus é Deus! Não um modo de agir
do Pai, como queriam os sabelianistas, negando a Trindade em sua pretensão
de demonstrar a unidade; mas uma outra Pessoa, distinta, embora igualmente
divina, e ainda que não seja um outro Deus. Nicéia é o
primeiro sínodo geral, e nele já se proclama a Trindade
e a Unidade em Deus, conforme seria explicitado pelos concílios
de Constantinopla, Éfeso, Calcedônia e Florença.
Pela ação de Atanásio e dos "três
Capadócios" – São Gregório de Nissa,
São Gregório Nazianzeno e São Basílo Magno
de Cesaréia –, no Oriente; e de Santo Hilário – bispo
de Poitiers, na Gália – e de Santa Clotilde – que
principiou a conversão dos francos, tribo germânica que
dominaria a política européia após a queda de
Roma –, no Ocidente; o arianismo foi desaparecendo.
Com o Credo de Nicéia, retomado por Constantinopla, o segundo
concílio ecumênico, o Filho não é adotivo,
ou criado do nada. Ele é "gerado, não criado, consubstancial
ao Pai."
Decorrente do erro de Ario, irrompe, anos mais tarde, fruto da efervescência
teológica daqueles séculos iniciais do cristianismo,
a heresia de Nestório, patriarca de Constantinopla. Em plena
celebração da Divina Liturgia – nome que os orientais
dão à Santa Missa –, o heresiarca trocou propositalmente
o título da Virgem Maria de Theotókos (Mãe de
Deus, em grego), para Christotókos (Mãe de Cristo).
Na verdade, o Patriarca Nestório queria, dentro de sua jurisdição
na Sé de Constantinopla, capital do Império do Oriente,
acabar com as ainda existentes fagulhas de arianismo. Pregando que
Jesus era verdadeiro Deus, acabou adotando outro erro – semelhante àquele
quanto as concepções filosóficas, mesmo que,
em sua formulação, seja o oposto –, rejeitando
que Maria fosse Theotókos. O nestorianismo aceitava apenas
que Nossa Senhora fosse Mãe de Cristo, porque não poderia
ser a mãe do Logos, do Verbo, este sim, Deus. Enfatizando a
divindade do Filho, acabava separando as naturezas humana e divina
de Jesus, a ponto de converterem-se em duas "pessoas" distintas.
São Cirilo de Alexandria, sucessor de Santo Atanásio
no governo do patriarcado da Igreja Egípcia, passou a combater
seu colega Nestório. Posteriormente, o Concílio Ecumênico
de Éfeso, em 431, condenou as teses nestorianas, excomungando
os partidários dessa doutrina, que não se coaduna com
a fé católica revelada. As decisões desse concílio
são de vital importância: Jesus é Deus, como já o
afirmara Nicéia; é homem, como nunca fora contestado
de maneira seriamente fundamentada; mas o homem Jesus não é distinto
do Deus Jesus. Contra Nestório, a Pessoa de Cristo é uma
só, e portanto a Santíssima Virgem Maria é, por
ser Mãe de Jesus, Mãe de Deus. Se Jesus é Deus,
e Maria sua Mãe, é, via de conseqüência,
Mãe de Deus. Confessar Nossa Senhora como Mãe de Deus
significa crer que Jesus Cristo, nosso Salvador, é Deus! Não
gerou Maria Deus em Sua eternidade, como se fosse ela a criadora do
Criador. Mas, quem se encarnou em seu ventre foi Deus, Jesus Cristo,
o Verbo, o Logos, o Filho, homem, é verdade, mas também
divino. Não houve separação em Cristo. Em Maria,
estava o Cristo total! "Pois nele habita corporalmente toda a
plenitude da divindade." (Cl 2,9)
Não se trata de dar título divino à Virgem.
Ela é criatura. Tampouco de atribuir a ela a geração
eterna da divindade, porém de estabelecer seu papel ímpar
no Corpo Místico de Cristo.
São Paulo, quando se dirige aos discípulos da cidade
de Corinto, fala do Corpo Místico de Cristo, do qual somos
membros. "Porque, como o corpo é um todo tendo muitos
membros, e todos os membros do corpo, embora muitos, formam um só corpo,
assim também é Cristo. (...) Ora, vós sois o
corpo de Cristo e cada um, de sua parte, é um dos seus membros." (1
Co 12,12.27)
Cada um de nós temos um papel a desempenhar nesse Corpo, que é a
Igreja, e do qual somos membros. Maria, por sua vez, também
o tem. E dizem os autores místicos, sobretudo Santo Afonso
de Ligório, São Bernardo, São Bernardino de Sena
e São Luís Maria de Montfort, que Nossa Senhora, membro
da Igreja, e portanto, também do Corpo Místico de Cristo, é o "colo",
o "pescoço" desse Corpo. Isso porque, sendo a cabeça
o próprio Cristo, é o colo que a liga a todos os outros
membros. E foi justamente através de Maria que Cristo veio
ao mundo. Por ser Mãe de Cristo, que é Deus – portanto
Mãe de Deus! –, a Virgem Santíssima é a
ligação entre a cabeça e os membros, entre Nosso
Senhor e nós, Seus discípulos. Se dela nasceu, corporalmente
Jesus, também é de forma espiritual, através
de suas orações junto ao seu Filho, que Ele nasce para
nós, cada vez que nos arrependemos de nossos pecados e vivemos
a vida da graça.
Maria atesta o caráter real da Encarnação do
Deus que se deixa circuncidar. É a prova de que Nosso Senhor
e Salvador Jesus Cristo, não deixou de ser Deus ao se tornar
homem.
Que esta reflexão nos leve a buscar o amparo da Virgem na
alvorada desse ano de 2002, a fim de que façamos, guardadas
as devidas proporções, o caminho inverso de Cristo na
Encarnação. A Encarnação é o meio
pelo qual, através do sacrifício vicário de Cristo
na cruz, Deus possibilita a todos nós a divinização.
Por Maria, imitando-a e recomendando-nos à sua intercessão
maternal, não deixemos nossa humanidade, antes nela vivamos
a santidade e a suplantemos com a graça, que nada mais é do
que a divindade comunicada a nós pelo Espírito Santo.
Deus se fez semelhante a nós por Maria. Também por
ela, deixemos que nos faça semelhante a Ele.
Autor: Dr. Rafael Vitola Brodbeck
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